Capítulo 3: A vida começa no ponto final

- Eu já amei muito uma pessoa. Muito e tanto, tanto, tanto… E ele também me amou.

- Ele?

 

- Sim… Ele era minha fonte máxima de felicidade. Nunca ninguém me fez tão feliz. O simples fato de ele existir e de estar comigo me enchia de alegria que era até difícil respirar. Quando dizia inesperadamente ‘Eu te amo’, meu corpo recebia grandes doses de adrenalina e me dava um frio na barriga… Eu o amei tanto… tanto…

 

- Não chora, por favor.

 

- Não consigo parar… Você acha que não estou tentando… ESTOU A SEMANAS TENTANDO!

 

- Me abraça…

……………………1

 

- Nunca mais amarei ninguém. Não suportaria perder novamente.

 

- Não fala isso.Você só tem que encontrar a pessoa certa.

 

- Já encontrei e ela não me quis.  E eu o amo tanto que não consigo odiá-lo… Nem um pouquinho.

 

- Tenta esquece-lo…

 

- É impossível. Tudo me lembra ele. Tudo!

 

- Mas você tem que tentar. Há quanto tempo estão separados?

 

- Quatro meses. Ele ainda está entranhado em meu corpo e em meu cérebro. Eu já me humilhei, já me arrastei e ele não me quer. É tão fino, tão elegante que nem faz eu ficar com raiva dele e isso me deixa mais impotente. Desculpe-me…

 

- Por quê?

 

- Por estar falando dele e dele…

 

- Nada! Pode desabafar, você está precisando.

 

- Será que eu sou uma pessoa detestável? Será que não sou atraente? Por que ninguém me quer?

 

- Muita gente daria qualquer coisa pra ficar com você.

 

……

 

- Estou me sentindo tão só.

 

- Eu estou aqui com você.

 

- Ele era meu pai e meu filho. Ele cuidava de mim e eu ensinava tudo para ele. Ele não sabia nada do amor. Quando terminamos, ele mesmo me disse isso.

 

- Isso o que?

 

- Que tudo que ele sabia sobre amor havia aprendido comigo.

 

- Ele era mais novo que você?

 

- Era dez anos mais velho.

 

- Nossa!

 

- Eu não esperava que fosse acontecer. Ele deixou de me amar quando eu mais o amava. Gostaria de ter levado uma grande surra…

 

- QUE?! Como assim?

 

- Em vez de terminar educadamente que ele tivesse metido a porrada em mim. Quem sabe eu não o odiaria hoje em dia. Talvez até poderia ter voltado a me amar.

 

- Você não merece isso. Você merece alguém que te ame. Me escuta.

 

- (…)

 

- Ele deixou de te amar e você o amava muito. Você poderá encontrar outra pessoa para amar tanto quanto o amou. Mas ele encontrará alguém que o amará tanto quanto você o amou?

 

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- Espero que não…

 

- Não chore mais, por favor…

 

- Não chora também não…

 

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- Adoro esse seu olhar. Olhando pro vazio, como se não estivesse aqui.

 

- (risos)

 

- Não pensa mais nele não. Tente se distrair, fazer outras coisas. Eu posso te fazer esquece-lo…

 

- Sobrou-me muito amor. Meu coração está cheio. Decidi distribui-lo.

 

- Como assim?

 

- Olha isso…

 

1 N.A.: Cada ponto equivale a 1 segundo

Capítulo 2: Um arrepio

Trouxe o homem para meu apartamento. Ele abraçava-me cada vez mais forte, enquanto suas lágrimas encharcavam todo seu rosto. Ele tão frágil, tão homem… Ele estava lindo! Sentia uma vontade louca de protegê-lo de tudo e de todos, de fazê-lo feliz. Ele tão ele, tão aberto aos seus sentimentos. Ouvi-o dizer entre os ruídos de sua tristeza “Está doendo”. Perguntei algumas vezes o que doía, mas ele não conseguia pronunciar uma palavra sequer. Entendi, então, que a dor não era física…

 

2.jpgEle foi ficando mole. Tanta lágrima, tanto suor… Como um biscoito molhado, foi perdendo as forças até cair devagar no chão. Agarrou-se a minha perna. Eu sentado no sofá deixei que ele apoiasse a cabeça em meus joelhos. Eu não sabia lidar com aquela situação que me era muito constrangedora. Por não saber o que dizer, calei-me. Devagar e timidamente comecei a acariciá-lo. Passava meus dedos por entre os fios macios de seu cabelo. Da raiz a ponta, da raiz a ponta… Lentamente. Às vezes, esfregava vagarosamente seu couro cabeludo. Seu choro foi diminuindo pouco a pouco. Pouco a pouco ele ia se calando. Num momento, tocou-me o joelho e com a ponta dos dedos suavemente acariciou minhas coxas. Mantinha uma expressão pensativa, como se não estivesse ali, como se estivesse em lembranças-mil. Fui tomado por um arrepio que iniciava na base da espinha dorsal e subia pelas costas abrindo-se na forma de uma árvore cuja copa acabava em meus ombros. Os vasos sangüíneos do meu sexo preencheram-se revelando minha excitação. Temi que ele percebesse. De repente, de forma natural, quase mecânica,  deitou-se sobre mim – e me fez deitar ao mesmo tempo – abraçou-me, encostou o rosto no meu e disse no meu ouvido “Obrigado”. Não via nada a não ser partes de seu rosto desfocadas devido a proximidade em que estávamos. E ele, sussurrando, continuou:

Capítulo 1: Dois

A enorme placa de metal lisa e cromada racha-se ao meio e deixa a luz invadir a ante-sala e iluminar a face do jovem de óculos escuros. Dois passos e ele está dentro da estreita cabine pondo um brilho verde no botão do oitavo andar do elevador.

 

cap1.jpg

Encostado no espelho que toma toda uma parede, um outro jovem observa todos seus movimentos. Dois homens, dois espíritos. De um lado, barba por fazer, camisa preta com listras brancas, calça escura e justa e olhos cobertos com uma enorme lente negra. Ostenta um rosto duro, imóvel e imaculável… Do outro, bermuda caqui, tênis, cordão de prata e um penteado com aspecto de molhado. Mascando chiclete, baixa a cabeça e olha o sujeito que acabara de entrar na cabine no fundo dos olhos. Segura o cós da bermuda puxa-a para baixo para que apareçam os pêlos pubianos. O veículo põe-se em movimento. O sujeito curva-se projetando a pelve e seus pêlos a mostra em direção ao outro. Em seu olhar provocante vê o homem a sua frente levantar a sobrancelha, logo depois contrair a testa, seguida de uma surpreendente torrente de lágrimas e de seu corpo atirando-se, abraçando-o e chorando compulsiva e sofregamente em seu ombro.

Dedicatória

A todos meus amores, fonte de inspiração e de material criativo.